Utilizando o Conceito de Ranges para Mudar o Estilo do Oponente
Nos últimos artigos, falamos a respeito de “ranges de mãos” e sobre como utilizar esse conceito para elevar o nível do nosso pensamento no jogo. Hoje, vamos encerrar esta série com um último exemplo clássico que ainda não abordamos, qual seja, usar o conceito de ranges para calcular o EV de uma jogada com a finalidade de mudar o estilo de jogo do nosso oponente.
Porém, antes de começarmos, gostaria de abrir um parêntese. Dia desses estava jogando um torneio e fui questionado no chat sobre uma 3-bet pré-flop com JJ. A pessoa me disse que havia lido um artigo meu, em que eu “condenava” esse movimento pelo fato de o mesmo não ter valor. Voltei aos meus textos e de fato vi que tinha escrito isso, mas numa situação completamente diferente da ocorrida no torneio em questão. Por que estou falando isso?
Pelo simples fato de que os movimentos e os exemplos de jogadas possuem “prazo de validade”, mas os conceitos por trás deles não. Como já afirmei em artigos anteriores: o poker muda, e uma situação lucrativa hoje pode não ser mais amanhã. O importante é ler os artigos e analisar as jogadas em busca de conceitos, e não de fórmulas pré-estabelecidas. A ideia é aprender a raciocinar, e não decorar situações. Isso é sempre o mais importante.
Dado o recado, vamos retomar nosso tema. Imagine que você esteja jogando heads-up com um vilão extremamente agressivo e esteja bastante incomodado com isso. Ele abre raise em muitos buttons e joga fora de posição contra você de maneira agressiva também, paga seus 3-bets e dificilmente dá fold diante de uma c-bet no flop. Enfim, o vilão vem literalmente lhe incomodando no jogo.
Numa certa altura vocês têm cerca de 20 big blinds efetivos. Você recebe T-8 off, e seu oponente abre raise de 2,5xBB, com blinds em $25-$50. Há a opção de pagar e jogar fora de posição contra um oponente bom e agressivo, mas você gostaria de saber o quão efetiva seria a tática de voltar reraise nele nessa situação.
A primeira coisa a se fazer é estimar a frequência com que ele abre raise do button. No nosso caso, vamos supor 6 aumentos a cada 10 mãos (média de 60%). Feito isso, você deve estimar as mãos com as quais ele pagaria o seu shove. Digamos que ele pague seu empurrão com 66+, A7s+, A8of+, KQs e KQ off. Agora, você pega essas mãos e lança no software do Poker Stove…
Percebe-se, então, que o range de call dele é de 12,8%. Num universo de 60% de raises abertos do button, isso representa aproximadamente 22% numa regra de três simples. Ou seja, quando você der o shove, estatisticamente falando, 78% das vezes ele vai largar. Logo, 78% das vezes em que você empurrar, vai levar as $150 fichas que estão no pote. “Mas, e nas vezes em que ele pagar, quantas fichas perderei?” Voltemos ao Poker Stove…
Pelo software, podemos perceber que em 32% das vezes ganharemos o pote, e 68% das vezes não. Assim, temos a conta:
0.78 * (150) + 0.22 * [(0.32*1000) + (0.68* -950)] = (117) + 0.22 * (320 – 646) = 117 – 71.72 =
$45.28 fichas.
Para quem não entendeu a conta, vamos explicá-la. Em 78% (0.78) da vezes, nós vamos ganhar as $150 fichas que estão no pote, o que totaliza $117 fichas “positivas”. Nos outros 22% das vezes, em 32% vamos ganhar as 1000 fichas do oponente, e em 68% vamos perder nossas $950 fichas restantes, o que representa $71.72 fichas “negativas”. No geral, a jogada fica $45.28 fichas positivas, apresentando EV+.
Se o seu oponente abre raises com mais frequência ainda, a jogada se torna ainda mais lucrativa. Porém, o mais importante é que ela ainda vai servir para mudar o estilo de jogo do seu adversário, fazendo com que ele mixe raises com limps, deixando você ver mais flops fora de posição, sem gastar mais fichas. O mais importante para o sucesso desse move não é o programa e nem os cálculos, mas que você saiba estimar com precisão o percentual de raises do seu oponente (coisa que bons programas como o Poker Tracker já fazem hoje em dia), bem como colocá-lo no range correto (coisa que nenhum programa pode fazer por você!).
Acho de grande valor estes meus últimos artigos para a CardPlayer Brasil (muitos deles estão publicados aqui na Universidade do Poker), pois nós devemos sempre estar dispostos a nos aprimorar. Falando por mim, por exemplo, nunca fui acostumado a usar softwares para análises, mas hoje me rendo a eles. No mínimo, eles são ferramentas importantes para se ter uma avaliação sob um prisma “matemático”, o que na maioria das vezes é muito importante no Hold’em.
Um abraço galera,
Christian Kruel
Este artigo foi publicado na edição n. 22 da CardPlayer Brasil



13:49h
17 setembro, 2009
Qnd vejo esses artigos do CK eu entendo pq existem profissionais e amadores, e pq a distância entre eles é tão grande…rs
Parabéns CK.
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01:21h
18 setembro, 2009
Parabens
CK
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19:45h
21 outubro, 2009
É um ótimo artigo para quem gosta de matemática hehe. Acho que matemática no poker, servi para alguns(pra mim não), as vezes faz todo este calculo de ranges de mãos e o cara tá pressionando com um simples 72off e muitas vezes leva a mão.
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18:45h
25 outubro, 2009
Mas, ric, esses cálculos são feitos utilizando softwares. Quem os usa coloca as informações no programa e aproveita em momentos de indecisão. É uma arma a mais contra adversários de níveis elevados, como, no caso, os oponentes do CK.
Porém há cálculos simples que podem ser feitos rapidamente na mesa, tanto on line quanto live que ajudam bastante.
Como a conta para calcular a porcentagem das suas outs. Você conta suas outs e multiplica por 4 do flop para o turn e multiplica por 2 e soma por 2 do turn pro river.
Ex.: Você tem na mão Js10h na mão. O flop traz 8s-2c-9h. Você tem como out todas as 4 cartas de 7 e as de Q, até aí 8 out. Além delas seu Js pode fazer um par e como está o board, até agora, pode lhe dar o maior par, o que lhe daria 3 outs. Então, ao total você tem 11 outs. 11×4, lhe dá aproximadamente 44% de bater qualquer uma dessas 11 cartas.
Se o turn trouxer um 3d, suas outs permanecem as mesmas, então você calcula 11×2+2, que lhe dá, aproximadamente 24%, de chances de completar sua sequência no river.
É um calculo simples que pode lhe ajudar em muitas decisões. Eles estão melhor explicados no livro “Aprendendo a jogar Poker”, do Leo Bello.
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Ps.: Eu ainda não peguei o “pulo do gato” de usar este cálculo de % de outs em comparação às pot odds, se alguém puder me ajudar, agradeço.
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Abs
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23:23h
25 outubro, 2009
Resposta para Jb Soares: Obrigado pela explicação Soares, mas eu prefiro agir mais pela pressão, intimidação,instinto entre outros métodos, do que através de cálculos matemáticos, não sou bom e nem gosto de matemática rsrsr Abs.
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